O preço certo
Há poucas semanas, uma revista divulgou os ordenados e prémios chorudos de alguns médicos que se dedicam a trocar peças aos seres humanos.
Os valores chocaram muita gente porque, à boa maneira portuguesa, os ordenados altos chocam os ouvidos e os olhos dos lusitanos, sejam eles os puritanos ou apenas invejosos. Raramente se perde tempo a analisar se o mesmo valor é ou não justo.
Os visados demitiram-se porque não gostam, e bem, que lhes seja apontado o dedo e lhes seja atribuída a característica de bandidos. A verdade é que as pessoas em causa são do melhor que há no mundo e o país devia ter orgulho nisso.
Os fundamentalistas de sofá e da escrita ainda não perceberam que, na era em que vivemos, os melhores recursos humanos vão para o sitio onde tiverem melhores condições e isso significa literalmente que tanto pode ser na China, no Quénia ou em Portugal. O amor à camisola só tem influência quando as condições são semelhantes ou os projectos tocam no coração. Vê-los partir de Portugal é uma perda para todos e não traz qualquer benefício ao país.
Numa terra onde jogadores de futebol ganham verdadeiras fortunas, onde nunca ninguém lhes aponta o dedo (apenas são assobiados de vez em quando) e têm a protecção divina da imprensa, não deixa de ser preocupante que aqueles salvam vidas ao mais alto nível sejam tratados como mercenários.
É por estas e por outras parecidas que as listas de espera dos hospitais não encolhem, que os melhores médicos fogem para os serviços privados ou para o estrangeiro, que os clubes de futebol estão falidos e que muitos dos jogadores de topo, só o são no ordenado que ganham.
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