1500 CHR


O preço certo

Há poucas semanas, uma revista divulgou os ordenados e prémios chorudos de alguns médicos que se dedicam a trocar peças aos seres humanos.

Os valores chocaram muita gente porque, à boa maneira portuguesa, os ordenados altos chocam os ouvidos e os olhos dos lusitanos, sejam eles os puritanos ou apenas invejosos. Raramente se perde tempo a analisar se o mesmo valor é ou não justo.

Os visados demitiram-se porque não gostam, e bem, que lhes seja apontado o dedo e lhes seja atribuída a característica de bandidos. A verdade é que as pessoas em causa são do melhor que há no mundo e o país devia ter orgulho nisso. 

Os fundamentalistas de sofá e da escrita ainda não perceberam que, na era em que vivemos, os melhores recursos humanos vão para o sitio onde tiverem melhores condições e isso significa literalmente que tanto pode ser na China, no Quénia ou em Portugal. O amor à camisola só tem influência quando as condições são semelhantes ou os projectos tocam no coração. Vê-los partir de Portugal é uma perda para todos e não traz qualquer benefício ao país.

Numa terra onde jogadores de futebol ganham verdadeiras fortunas, onde nunca ninguém lhes aponta o dedo (apenas são assobiados de vez em quando) e têm a protecção divina da imprensa, não deixa de ser preocupante que aqueles salvam vidas ao mais alto nível sejam tratados como mercenários.

É por estas e por outras parecidas que as listas de espera dos hospitais não encolhem, que os melhores médicos fogem para os serviços privados ou para o estrangeiro, que os clubes de futebol estão falidos e que muitos dos jogadores de topo, só o são no ordenado que ganham.


Doença Crónica

Muito se tem falado e escrito sobre a situação do sector da saúde em Portugal. O Governo pátrio esforça-se para reformular o actual sistema, mas o mesmo está, há muito, empenado e, por isso, levará anos a pô-lo mais direito.

Factos:
- O sistema de saúde português custa uma fortuna, para os resultados que produz;
- Os principais serviços de um modo geral não funcionam. Marcar uma consulta num centro de saúde é uma dor de cabeça, as listas dos hospitais não encolhem;
- Quem tem dinheiro e falta de paciência recorre aos serviços privados para satisfazer as suas necessidades. Contribui com os impostos para o sistema público e paga ao particular;
- O grupo de interesses é seguramente dos mais fortes, provocando um ruído tão intenso que é difícil perceber quem tem razão;

É difícil perceber, para nós, comuns mortais, porque razão:
- Os médicos têm uma rédea tão solta entre o serviço público e privado;
- As listas de espera nos hospitais não baixam, após 1001 anúncios e conferências de imprensa;
- Existem tantos doentes em Portugal;
- Se fazem verdadeiras fortunas nos serviços de saúde e se mantêm alguns monopólios;
- É preciso comprar uma caixa de medicamentos grande para tratamentos pequenos,
- As universidades médicas continuam a não dar vazão para as necessidades existentes.

Racionalizar o sistema, fechando serviços com pouca frequência de utentes, deslocando os médicos para sítios onde possam ser mais rentabilizados e reforçando os meios intermédios de assistência faz sentido, embora sempre sujeito a problemas e graves riscos (problemas que podem ser fatais) e ao inevitável aproveitamento político.

A verdade é que felizes são os que não precisam de recorrer aos serviços de saúde e cujos parentes mais próximos também não, ou que podem pagar para não esperar. Quando essa sorte muda, ficamos nas mãos dos deuses.


Ota’clismo

Finalmente vamos poder aterrar (de aterro) o assunto do aeroporto internacional de Lisboa!

Anos e muito suor depois, parece que foi encontrada uma solução a contento da maioria da opinião pública, dos jornais, da oposição, dos principais grupos económicos e até de sua Excelência, o Senhor Presidente da República.

Agora é hora de enterrar os mortos e de tratar dos vivos.

Em Portugal consumimos horas infindáveis em discussões sem sair do mesmo sítio, ou da cepa torta, como o povo costuma dizer, e bem. Como é possível que se tenha perdido tanto tempo a decidir sobre o local onde construir um aeroporto? Um aeroporto não é, por certo, algo muito complicado de construir. Até os países mais pobres do mundo têm um. Por outro lado, localizações perfeitas não existem.

Muita gente apostou no cavalo errado e outros foram obrigados a ficar pendurados anos a fio porque o estado tinha decidido construir o aeroporto na Ota.

Cabe ao estado compensar as vítimas dessa demora.

Enquanto habitante de Arruda dos Vinhos fico satisfeito com a decisão. Um aeroporto na Ota iria criar grandes pressões urbanísticas, a uma vila de Arruda cada vez mais descaracterizada e sem rumo visível

Um dos problemas de Arruda não é, seguramente, a falta de pessoas e de prédios. O que Arruda precisa é de conseguir aproveitar os recursos humanos que tem e de criar um efeito multiplicador nas capacidades individuais existentes. O proveito colectivo tirado por muitos naturais de Arruda terem conseguido uma formação superior tem sido quase nulo por exemplo.

Por isso, o futuro do concelho está mais depende do que individualmente e colectivamente fizermos em casa do que nas mais valias que possam advir do trabalho da casa dos outros.


Os testas de ferro

No Partido Socialista é tradição os militantes dizerem publicamente o que lhes vai na alma, sem cair o Carmo e a Trindade. O debate político faz parte dos genes da instituição. Há umas personagens que o fazem para alimentar o ego, mas, de um modo geral, as intervenções são isentas de qualquer sede de protagonismo.

Desde que José Sócrates chegou a Primeiro-Ministro, esse debate tem estado muito ausente. Há muita gente sentada à sombra da bananeira e a tirar uma licença sabática à custa do orçamento, enquanto outros têm medo de afrontar os fígados da equipa de José Sócrates.

A recente entrevista de Ferro Rodrigues veio mostrar que, no Partido Socialista, ainda há VIPS acordados e não acomodados.

Da entrevista o que preocupa é a resposta de alguns “testas de ferro” (não confundir com a testa do Rodrigues) que responderam como se o governo fosse intocável. Nem o Papa faz tudo bem feito…

É perfeitamente aceitável que o Primeiro-Ministro não tenha paciência para os partidos do bota-abaixo e alguma direita que levou o país para o buraco onde estamos. É aceitável que não haja paciência para os manifestantes profissionais e para muitos sindicalistas que só acreditam em fantasmas e em bruxas.

Mas também é perfeitamente aceitável que se pergunte a quem de direito porque razão se gastam milhões em consultorias e ninguém consegue saber quem são esses consultores, porque razão os bancos fazem o que querem e lhes apetece e nem a Cavaco dão cavaco e perguntar porque razão alguns ministros fazem o figurão que fazem? E o rol podia continuar…

É obrigação do Governo explicar e dar a cara pelas medidas que toma e o Partido Socialista manter um debate activo e franco. Quem não perceber isto ou não quer perceber arrisca-se a que quando quiser explicar já ninguém os queira ouvir.


Adeus fumaça!

Com a chegada do novo ano, Portugal entra na lista dos países onde fumar em espaços fechados é proibido.

Como é hábito na “west coast of Europe”, a nova lei entra em vigor e já existem dúvidas sobre a sua aplicação. Certamente a nova lei foi feita num espaço cheio de fumadores, o que impediu o legislador de ver com total clareza quais os pontos menos claros da lei.

Cumprindo o que, também, começa a ser uma tradição, a nova lei entra em vigor e entra-se numa paranóia colectiva, como se o futuro do país tivesse dependente do que foi decretado e como se todos os problemas fossem resolvidos com base no que é publicado do Diário da República.

Não se costuma dizer que somos dos países da Europa, quiçá do mundo, com as leis mais avançadas em muitos domínios? Um luxo retórico, num país de pobre execução.

É óbvio que a nova lei está correcta, ao impedir que se fume na maioria dos espaços fechados. Quem não fuma não tem de ser incomodado e prejudicado com o fumo alheio, ainda mais quando se sabe que a grande maioria dos fumadores fica cego e surdo quando é hora de fumar. O cigarro torna-se o centro do mundo e tudo à volta não interessa.

Apesar desta nova lei ser uma evolução positiva no ar que se respira em espaços fechados, o maior problema que existe é o ar que se respira em espaços públicos, com a poluição atmosférica causada em grande parte pelos transportes rodoviários.

O que é feito para ultrapassar isso? Quase nada. É bem mais difícil porque afecta fumadores e não fumadores, prejudica alguns interesses privados e tem em vista o interesse colectivo (que pouco ou nada se manifesta) e não o interesse individual (que não ia gostar nada).

É bem mais fácil e instantâneo apontar o dedo a um fumador do que olhar para o espelho e questionarmo-nos porque razão não faz pressão para reduzir a poluição automóvel.


Metro chega a bom terreiro

O túnel do metro no Terreiro do Paço foi, finalmente, concluído, com muitos milhões de gastos que não estavam previstos e muitos meses depois do que tinha sido inicialmente estipulado.

Como é óbvio, é natural existirem alguns imprevistos em obras desta natureza, mas, neste projecto, tiveram um peso preponderante.

Um dos edifícios do Terreiro do Paço abateu um pouco por causa das mexidas nos terrenos e teve que ser evacuado e a sua utilização abandonada; o túnel principal meteu água e fez-se outro dentro do inicial.

Houve incúria? De quem foi a responsabilidade pelo sucedido? Muitos ministros, dirigentes e técnicos depois, a obra é inaugurada e, mais uma vez, a culpa vai morrer solteira.

Não se vai saber publicamente porque razão as coisas correram mal, de quem é a responsabilidade e se houve ou não procedimentos graves que resultaram no que se sabe. Os contribuintes mereciam esse respeito, mas mais depressa é penhorada a casa de um comerciante que não pagou 500 euros de um imposto qualquer, do que entram inspectores oficiais nas empresas que fizeram os projectos e construíram as obras de milhões de euros.

O resultado final é uma obra importante para a cidade de Lisboa e uns milhões extras deitados ao Tejo, que por ter as águas bem turvas não dá para ver onde foram parar.

Uma obra que poderá pôr em causa a estabilidade dos edifícios do Terreiro do Paço, uma vez que o mesmo está assente sobre as famosas estacas, que agora convivem com toneladas de betão armado. Os técnicos dizem que não há perigo, mas também não havia perigo do edifício abater ou de o túnel meter água.

Problemas à parte, para os milhares de portugueses que chegam todos os dias a Santa Apolónia e da Margem Sul esta é uma obra que vai diminuir, um pouco, o tormento diário que é chegar ao emprego. Uma boa prenda de Natal.


A nossa dívida

O Ministro das Finanças afirmou há poucos dias que o nível de endividamento dos portugueses estava a atingir o limite do sustentável, e que era necessário travar esse crescimento. Apresentou dados que confirmam que uma grande parte desse endividamento é feito para aquisição de habitação.

La Palice não diria melhor.

O problema é que La Palice não poderá fazer nada para resolver o problema, enquanto o Ministro das Finanças pode e deve. Se calhar o senhor ministro ainda não reparou ou pensou que os portugueses contraem um empréstimo junto da banca para comprar casa, não porque sejam masoquistas (pelo menos, neste aspecto), mas porque não existe qualquer alternativa. O mercado de arrendamento continua a não funcionar, apesar do governo ter mudado a lei há pouco (a nova lei veio substituir uma lei antiga que não funcionava…).

Se a lei das rendas funcionasse poucos comprariam casa, existiria uma maior mobilidade, o mercado de reconstrução e reabilitação das zonas antigas das vilas e cidades seria uma realidade e o nível de endividamento dos portugueses deixaria de ser uma dor de cabeça para todos.

Mas a verdade é que a lei das rendas interessa a muito poucos. Às autarquias, que deixaram de receber tantas taxas pelas novas construções, aos bancos, que deixaram de ter tantos lucros, aos construtores civis, ao Estado, e a mais uns quantos que vivem à conta desta situação.

Num país onde as pessoas não têm um grande poder de compra, somos suficientemente ricos para comprar uma casa, que nos deixa presos a uma despesa e uma entidade – bancos – que à mais pequena falha trata-nos como se fossemos criminosos.

O emaranhado de interesses é tão grande que o novelo (e novela) da lei das rendas nunca mais se desembaraça.


Special One vs Santana Lopes

Santana Lopes fez bem em abandonar a entrevista na SIC Notícias quando foi interrompido por causa da chegada a Portugal do José Mourinho.

Apesar de ser um politico que nem sempre faz para ser respeitado, Santana Lopes foi ex-Primeiro-Ministro e, nem que seja  só por isso merecia, outro tratamento e deferência.

Enquanto espectador, pouco me interessam, sinceramente, as entrevistas sobre o estado de sitio que se vive no PSD, sejam com Santana Lopes ou com qualquer militante de base.

Por isso, entre a chegada do “Special One” e os problema com as quotas do PSD… acho que a SIC Notícias decidiu bem.


A (falta) de mobilidade

Esta semana celebra-se a “Semana da Mobilidade”.

Olhando para a programação proposta em algumas vilas e cidades do país não se pode ficar indiferente. São totalmente ridículas, folclóricas e quase uma ofensa a quem sofre todos os dias nos transportes públicos ou que tem de viajar de carro porque não tem alternativa.


Tenho a experiência de 7 anos de transportes públicos e, por isso, estou à vontade para falar do tema.

Um dos grandes problemas dos transportes públicos é que a maioria dos decisores e planeadores nunca os experimentou ou porque tem carro com motorista ou porque quem é especialista na matéria durante todo o curso académico também não foi obrigado a, pelo menos, experimentar os ditos.


Por isso, fazem-se novas urbanizações sem pensar nos transportes públicos e nos jardins-de-infância e escolas, constroem-se “interfaces” sem estacionamento adequado ou sem abrigos para as intempéries. Por outro lado, nos transportes públicos somos forçados a ter o mesmo espaço que as sardinhas em lata (situação muito agradável quando chove ou faz muito calor) e a pagar quase tanto quanto paga quem usa transporte particular.


Quem usa a “linha de Sintra”, por exemplo, sabe que é quase impossível estacionar um carro perto das principais estações, que os comboios andam quase sempre lotados, que a segurança é tudo menos isso. Ao lado, milhares de pessoas desesperam no IC19 trancados dentro das suas viaturas. Porque razão não se consegue resolver o problema?


Perante a realidade existente (falta de alternativas ou alternativas de baixa qualidade), é natural que as grandes cidades vivam atoladas com carros, que todos percamos horas e a paciência em bichas e que os políticos locais e nacional decidam mal e sobre o que nunca sentiram.


Rugby

Este fim-de-semana quem assistiu ao jogo da selecção portuguesa de Rugby não pode deixar de ficar “tocado” com a postura e participação da equipa.

Os ingredientes para este mundial eram e são conhecidos: a primeira participação num campeonato do mundo, o concretizar de um sonho para todos os envolvidos e uma selecção amadora no meio de profissionais. Para ajudar, o sorteio ofereceu um grupo com equipas do melhor que existe e, com isso, a equipa ficou sem espaço para quaisquer brilharetes em termos de classificação.

Chegar a este mundial só foi possível graças a uma equipa técnica do melhor que existe e a um espírito de equipa inigualável, alicerçado numa vontade e um espírito de sacrifício individual dignos dos maiores “guerreiros”. Quem não conhece a realidade do Rugby português talvez devesse comprar o livro escrito pelo treinador da equipa Tomás Morais….

Perante a realidade e cenário do campeonato do mundo, a equipa voltou a superar-se desde o primeiro segundo. Cantou o hino para ser ouvido em Portugal, e jogou com todas as forças que tinha e não tinha, nunca deixando de lutar, apesar do avolumar do resultado. No Rugby, respeitar o adversário é, em primeiro lugar, jogar sempre nos limites.

A postura da equipa no jogo teve como prémio a escolha do capitão da equipa como melhor jogar em campo e um reconhecimento do mundo do rugby.

Em Portugal, os ecos da participação da equipa neste mundial são conhecidos. A RTP nem se esforçou para transmitir os jogos do mundial e, na Segunda-feira, os jornais desportivos mergulham profundamente entre os banhos e massagens das estrelas do futebol.

No próximo Sábado, Portugal joga contra a Nova Zelândia, o Brasil do Rugby. O resultado será ainda mais pesado, mas vai dar um grande prazer voltar a ver a postura e comportamentos da equipa. No desporto, como na vida, nem sempre o resultado é o mais importante.